2011 | Ad Infinitum / Silêncio | Consulado-Geral de Portugal, Paris FR

.

AD INFINITUM 

Silêncio      

O silêncio é o princípio, o antes. É também dele que o fim é feito. Nada mais é tão amplo em significância, sentido e alcance como aquilo que simultaneamente nos pode parecer tão árido e vazio quanto fecundo e abundante.

O silêncio é o antes da vida, incubação da matéria, é ventre escuro, óvulo, cavidade divina. 

Trajecto primeiro para o acontecer das coisas. Estado anterior, lugar interior. Território do tempo e da disciplina; Domínio das coisas não visíveis. O silêncio é o pouco e o amplo, o mais sagrado dos lugares, o mais sábio dos estados.

O silêncio é uma enorme planície húmida, onde a semente se dá em sumos e sabores novos. Arco sagrado ligando o seminal impulso da busca ao mistério do encontro.

Nele se afiam as espadas antes da guerra. Momento maior que a mais longa batalha. Trovão mudo, seco e absoluto como todas as legiões da história. 

Silêncio é o regresso à dúvida. Casca pétrea que nos embala na revelação da dor e do anúncio. Mesura sublime da escala que a nossa urgência nos sonega. Contracção do gesto em silábica soltura frívola. Silêncio é o sim. O sim completo, o branco cheio. Código de peregrino, combate e oração. Abraço que não desprende. O silêncio é o princípio, o antes, o caminho inicial para o fim.

 

Silence

Le silence, c’est le début, l’avant. Et c’est de lui aussi qu’est faite la fin. Rien n’est plus vaste en signification, en sens, en portée, que ce qui nous peut sembler à la fois aussi vide et aride qu’abondant et fécond.

Le silence, c’est l’avant de la vie, l’incubation de la matière, c’est le ventre noir, l’ovule, la divine cavité. 

Trajet primordial vers le phénomène des choses. État antérieur, lieu intérieur. Territoire du temps et de la discipline ; domaine des choses invisibles. Le silence est le très petit et le très vaste, le lieu le plus sacré, l’état le plus sage qui soit.

Le silence est une immense plaine humide, où la semence n’est qu’élixirs et parfums nouveaux. Arc sacré qui unit l’impulsion séminale de la quête au mystère de la rencontre.

C’est à lui que s’aiguisent les glaives de la guerre. Instant plus long que la plus longue des batailles. Tonnerre muet, sec, aussi absolu que toutes les légions de l’Histoire.

Le silence est retour au doute. Coque de pierre qui nous berce à l’instant de la révélation de la douleur et de l’annonce. Révérence sublime de l’échelle que nous nie notre urgence. Contraction du geste en une frivole légèreté syllabique. Le silence c’est l’accord. L’accord parfait, la plénitude du blanc. Code du pèlerin, du combat et de la prière. Étreinte sans relâche. Le silence c’est le début, l’avant, le chemin initial vers la fin.

Fernando Gaspar

 

works

Making Of

Gallery

Descarregar PDF